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Exército gasta R$ 1,27 bi em mísseis e blindados e cita Ucrânia, Palestina e crise com a Venezuela

Publicada em: 18/03/2026 13:15 -

 

O Exército Brasileiro investiu, durante o governo Lula (PT), R$ 1,27 bilhão na aquisição de mísseis anticarro e viaturas blindadas com capacidade anfíbia. As compras se devem ao Programa Estratégico Forças Blindadas e à recente decisão de autorizar a compra de 100 mísseis Javelin FGM‑148F dos Estados Unidos, já noticiada pela Revista Sociedade Militar.

Segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pela Folha de S.Paulo, o objetivo declarado das compras é garantir que “as forças terrestres estejam preparadas para enfrentar ameaças contemporâneas e futuras”.

De acordo com a resposta oficial enviada pelo Exército à Folha, foram adquiridos 220 mísseis anticarro em 2025, ao custo total de R$ 153,8 milhões.

 

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O pacote inclui 100 mísseis FGM‑148F Javelin, fornecidos pelos Estados Unidos no âmbito de acordo conduzido pela Comissão do Exército em Washington, e 120 mísseis Max 1.2 AC, de fabricação nacional pela empresa SIATT, sediada em São José dos Campos (SP).

O Javelin já havia sido anunciado pelo Comandante do Exército, general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, em 2024, com previsão de entrega a partir de 2025, integrando o Programa Forças Blindadas.

Mísseis anticarro e a nova lógica de dissuasão do Exército

A Força informou, em resposta ao pedido via LAI, que a finalidade dos novos mísseis é “aprimorar a capacidade de dissuasão do Exército brasileiro”, destacando que um armamento coletivo anticarro é considerado crucial para reforçar a linha de defesa em operações terrestres.

Como justificativa operacional, o Exército cita explicitamente o emprego de mísseis portáteis anticarro na guerra entre Rússia e Ucrânia e em conflitos na Palestina, onde esse tipo de sistema tem sido empregado contra colunas blindadas e forças mecanizadas em ambientes urbanos.

Portfólio de mísseis anticarro e blindados Guarani no Programa Forças Blindadas

Questionado se já havia adquirido armamento equivalente antes de 2023, o Exército mencionou apenas a compra, em 2021, de 100 mísseis portáteis anticarro Spike LR2, de origem israelense, processo também já noticiado em publicações especializadas.

A partir daí, o portfólio brasileiro de armas anticarro passa a combinar o Spike LR2, o Javelin americano e o míssil nacional Max 1.2 AC, consolidando uma capacidade de engajamento de blindados em diferentes alcances e perfis de missão.

No segmento de blindados, os dados entregues via LAI indicam a aquisição de 163 viaturas entre 2023 e 2026, em sua maioria viaturas blindadas de transporte de pessoal (VBTP) Guarani 6×6, totalizando R$ 1,12 bilhão em contratos.

A fabricação das novas versões do Guarani está a cargo da IDV Brasil, em Sete Lagoas (MG), no escopo de um contrato estimado em R$ 7,5 bilhões até 2040 para a entrega de centenas de viaturas à Força terrestre.

Segundo informações públicas da indústria e do próprio Exército, o Guarani 6×6 pesa cerca de 18 toneladas, é anfíbio, atinge aproximadamente 110 km/h e tem autonomia próxima de 600 km, podendo operar em terrenos variados e cursos d’água.

Crise em Essequibo, intervenção dos EUA e impacto na estratégia brasileira

Ainda segundo a Folha, militares envolvidos na condução do Programa Forças Blindadas indicam que o estopim político‑estratégico para acelerar essas aquisições foi a ofensiva da Venezuela sobre a Guiana, na disputa pela região de Essequibo, no fim de 2023.

À época, órgãos de inteligência brasileiros chegaram a trabalhar com o cenário de uma possível invasão venezuelana por terra, o que implicaria risco direto à fronteira com Roraima, levando à mobilização de tropas, blindados e mísseis na região Norte.

Esse quadro se alterou de forma brusca após a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de ordenar uma operação militar em Caracas e capturar Nicolás Maduro, posteriormente levado a Nova York para responder a acusações ligadas a tráfico de drogas.

Diante do precedente de uma intervenção direta na América do Sul, o presidente Lula cobrou das Forças Armadas estudos de cenários sobre as vulnerabilidades do Brasil frente a uma ação semelhante.

Preocupação de Lula com incursões externas e pressão política dos EUA

Mais recentemente essa preocupação presidencial foi externada em discurso público em Brasília durante visita do presidente sul‑africano Cyril Ramaphosa.

Lula contrapôs a ideia de que, embora a América do Sul se apresente como região de paz e sem armas nucleares, a ausência de investimentos consistentes em defesa pode abrir espaço para incursões externas.

O cenário de uma eventual confrontação direta com os Estados Unidos, que hoje parece remoto mas já é usado como exercício por analistas e sistemas de inteligência artificial.

Isso foi discutido num artigo da Revista Sociedade Militar em que três IAs calculam quanto tempo o Brasil resistiria em uma guerra contra os EUA.

O sigilo por trás dos novos mísseis e blindados

A distribuição geográfica dos novos mísseis e blindados por batalhão e estado, no entanto, foi classificada pelo Exército e negada no âmbito do processo de LAI, sob o argumento de que a divulgação desse mapa colocaria em risco a defesa e a soberania nacionais e prejudicaria operações estratégicas.

Oficialmente o EB apenas confirma que parte dos meios foi direcionada para unidades em Roraima, para a 1ª Companhia Anticarro Mecanizada em Osasco (SP), e para brigadas no Paraná, que vêm recebendo viaturas Guarani.

Base Industrial de Defesa e a mudança de postura do Exército para a dissuasão regional

Do ponto de vista da Base Industrial de Defesa, o pacote reforça a posição da SIATT como fornecedora de sistemas inteligentes de armas e consolida a IDV Brasil como principal fabricante de blindados sobre rodas da Força Terrestre.

A SIATT mantém contratos com o Exército desde 2019 e, em 2025, assinou novo acordo para produção em série do míssil Max 1.2 AC, sistema de médio alcance guiado por laser, com ogiva de carga oca e capacidade de perfuração de blindagem de até centenas de milímetros de aço RHA, projetado para emprego contra carros de combate e alvos fortificados.

Ao vincular explicitamente as compras de R$ 1,27 bilhão ao aprendizado da guerra na Ucrânia, aos combates na Palestina e às tensões na fronteira com a Venezuela, o Exército sinaliza uma mudança de postura.

A Força passa da simples reposição de meios para uma lógica de dissuasão regional apoiada em armas anticarro modernas, blindados anfíbios e maior integração com a Base Industrial de Defesa.

Fonte: Sociedade Militar

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