O Exército Brasileiro investiu, durante o governo Lula (PT), R$ 1,27 bilhão na aquisição de mísseis anticarro e viaturas blindadas com capacidade anfíbia. As compras se devem ao Programa Estratégico Forças Blindadas e à recente decisão de autorizar a compra de 100 mísseis Javelin FGM‑148F dos Estados Unidos, já noticiada pela Revista Sociedade Militar.
Segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pela Folha de S.Paulo, o objetivo declarado das compras é garantir que “as forças terrestres estejam preparadas para enfrentar ameaças contemporâneas e futuras”.
De acordo com a resposta oficial enviada pelo Exército à Folha, foram adquiridos 220 mísseis anticarro em 2025, ao custo total de R$ 153,8 milhões.
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O pacote inclui 100 mísseis FGM‑148F Javelin, fornecidos pelos Estados Unidos no âmbito de acordo conduzido pela Comissão do Exército em Washington, e 120 mísseis Max 1.2 AC, de fabricação nacional pela empresa SIATT, sediada em São José dos Campos (SP).
O Javelin já havia sido anunciado pelo Comandante do Exército, general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, em 2024, com previsão de entrega a partir de 2025, integrando o Programa Forças Blindadas.
Mísseis anticarro e a nova lógica de dissuasão do Exército
A Força informou, em resposta ao pedido via LAI, que a finalidade dos novos mísseis é “aprimorar a capacidade de dissuasão do Exército brasileiro”, destacando que um armamento coletivo anticarro é considerado crucial para reforçar a linha de defesa em operações terrestres.
Como justificativa operacional, o Exército cita explicitamente o emprego de mísseis portáteis anticarro na guerra entre Rússia e Ucrânia e em conflitos na Palestina, onde esse tipo de sistema tem sido empregado contra colunas blindadas e forças mecanizadas em ambientes urbanos.
Portfólio de mísseis anticarro e blindados Guarani no Programa Forças Blindadas
Questionado se já havia adquirido armamento equivalente antes de 2023, o Exército mencionou apenas a compra, em 2021, de 100 mísseis portáteis anticarro Spike LR2, de origem israelense, processo também já noticiado em publicações especializadas.
A partir daí, o portfólio brasileiro de armas anticarro passa a combinar o Spike LR2, o Javelin americano e o míssil nacional Max 1.2 AC, consolidando uma capacidade de engajamento de blindados em diferentes alcances e perfis de missão.
No segmento de blindados, os dados entregues via LAI indicam a aquisição de 163 viaturas entre 2023 e 2026, em sua maioria viaturas blindadas de transporte de pessoal (VBTP) Guarani 6×6, totalizando R$ 1,12 bilhão em contratos.
A fabricação das novas versões do Guarani está a cargo da IDV Brasil, em Sete Lagoas (MG), no escopo de um contrato estimado em R$ 7,5 bilhões até 2040 para a entrega de centenas de viaturas à Força terrestre.
Segundo informações públicas da indústria e do próprio Exército, o Guarani 6×6 pesa cerca de 18 toneladas, é anfíbio, atinge aproximadamente 110 km/h e tem autonomia próxima de 600 km, podendo operar em terrenos variados e cursos d’água.
Crise em Essequibo, intervenção dos EUA e impacto na estratégia brasileira
Ainda segundo a Folha, militares envolvidos na condução do Programa Forças Blindadas indicam que o estopim político‑estratégico para acelerar essas aquisições foi a ofensiva da Venezuela sobre a Guiana, na disputa pela região de Essequibo, no fim de 2023.
À época, órgãos de inteligência brasileiros chegaram a trabalhar com o cenário de uma possível invasão venezuelana por terra, o que implicaria risco direto à fronteira com Roraima, levando à mobilização de tropas, blindados e mísseis na região Norte.
Esse quadro se alterou de forma brusca após a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de ordenar uma operação militar em Caracas e capturar Nicolás Maduro, posteriormente levado a Nova York para responder a acusações ligadas a tráfico de drogas.
Diante do precedente de uma intervenção direta na América do Sul, o presidente Lula cobrou das Forças Armadas estudos de cenários sobre as vulnerabilidades do Brasil frente a uma ação semelhante.
Preocupação de Lula com incursões externas e pressão política dos EUA
Mais recentemente essa preocupação presidencial foi externada em discurso público em Brasília durante visita do presidente sul‑africano Cyril Ramaphosa.
Lula contrapôs a ideia de que, embora a América do Sul se apresente como região de paz e sem armas nucleares, a ausência de investimentos consistentes em defesa pode abrir espaço para incursões externas.
O cenário de uma eventual confrontação direta com os Estados Unidos, que hoje parece remoto mas já é usado como exercício por analistas e sistemas de inteligência artificial.
Isso foi discutido num artigo da Revista Sociedade Militar em que três IAs calculam quanto tempo o Brasil resistiria em uma guerra contra os EUA.
O sigilo por trás dos novos mísseis e blindados
A distribuição geográfica dos novos mísseis e blindados por batalhão e estado, no entanto, foi classificada pelo Exército e negada no âmbito do processo de LAI, sob o argumento de que a divulgação desse mapa colocaria em risco a defesa e a soberania nacionais e prejudicaria operações estratégicas.
Oficialmente o EB apenas confirma que parte dos meios foi direcionada para unidades em Roraima, para a 1ª Companhia Anticarro Mecanizada em Osasco (SP), e para brigadas no Paraná, que vêm recebendo viaturas Guarani.
Base Industrial de Defesa e a mudança de postura do Exército para a dissuasão regional
Do ponto de vista da Base Industrial de Defesa, o pacote reforça a posição da SIATT como fornecedora de sistemas inteligentes de armas e consolida a IDV Brasil como principal fabricante de blindados sobre rodas da Força Terrestre.
A SIATT mantém contratos com o Exército desde 2019 e, em 2025, assinou novo acordo para produção em série do míssil Max 1.2 AC, sistema de médio alcance guiado por laser, com ogiva de carga oca e capacidade de perfuração de blindagem de até centenas de milímetros de aço RHA, projetado para emprego contra carros de combate e alvos fortificados.
Ao vincular explicitamente as compras de R$ 1,27 bilhão ao aprendizado da guerra na Ucrânia, aos combates na Palestina e às tensões na fronteira com a Venezuela, o Exército sinaliza uma mudança de postura.
A Força passa da simples reposição de meios para uma lógica de dissuasão regional apoiada em armas anticarro modernas, blindados anfíbios e maior integração com a Base Industrial de Defesa.
Fonte: Sociedade Militar





